Congresso Judaico Mundial pede restituição para refugiados judeus

Renato Galeno

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Depois de recentes vitórias históricas, como o pedido de desculpas do Vaticano devido a perseguição de judeus no passado e a devolução de dinheiro de contas bancárias na Suíça roubado durante o nazismo, o Congresso Judaico Mundial (CJM) já escolheu suas próximas batalhas: o combate ao crescimento do anti-semitismo na Europa e a luta pelo reconhecimento dos direitos dos refugiados judeus que saíram de países árabes. Para o presidente do CJM, Edgar Bronfman, que encerra hoje uma visita ao Rio, o mundo deve enfrentar estes problemas de frente se quiser ser justo com os judeus.

 

O poderoso CJM é o braço diplomático das comunidades judaicas de todo o mundo em suas relações com governos e entidades. Isto faz de Bronfman um alvo preferencial de grupos radicais ou redes terroristas como a al-Qaeda e medidas de segurança extremas são observadas. Dezenas de seguranças, incluindo agentes israelenses, foram mobilizado para proteger Bronfman e o presidente do conselho do CJM, Israel Singer. Carros blindados foram usados e um andar inteiro do Copacabana Palace foi isolado.

 

Para Bronfman, o ressurgimento do anti-semitismo na Europa está muitas vezes mascarado em declarações contra as políticas do governo de Israel.

 

— Há uma grande diferença entre ser crítico e propagar ódio — disse Bronfman, em entrevista exclusiva ao GLOBO. — Não acho que seja tão difícil fazer a diferença. A pessoa está tentando oferecer ajuda ou ódio? Se você critica com a intenção de ajudar, isto é crítica positiva. Mas se você só critica se baseando nos argumentos, “odeio esse povo”, isso é anti-semitismo.

 

Para o canadense, presidente do CJM desde 1981, as críticas a Israel não devem ser consideradas anti-semitismo. Mas diz que em países como França, Bélgica, Alemanha e Reino Unido há crescentes casos de preconceito. Mas ele próprio ataca uma das mais polêmicas políticas do governo de Ariel Sharon.

 

— Crítica não é o mesmo que anti-semitismo. Eu poderia ser acusado de anti-semita. Algumas vezes critico o que Israel faz. Venho criticando os assentamentos desde 1976, dizendo que eles são errados, que não ajudarão Israel a ter paz.

 

Num contra-ataque ao pleito de palestinos que fugiram ou foram expulsos na criação de Israel, o CJM pede que a comunidade internacional demonstre a mesma preocupação com judeus que deixaram os países árabes. Segundo o Congresso, mais de 800 mil judeus saíram ou foram expulsos e tiveram suas propriedades tomadas.

 

— Não há dúvida de que centenas de milhares de judeus deixaram Marrocos, Argélia etc. E deixaram suas propriedades para trás. E os árabes da Palestina falam do que eles deixaram para trás quando Israel foi criado. Então sejamos justos. Não façam disso uma rua de mão única.

 

Bronfman elogiou a postura do Papa João Paulo II, que, segundo ele, avançou mais na questão do preconceito contra judeus “em 20 anos do que em dois milênios”. Mas disse que a estrutura católica pode não ser tão rápida quando seu líder.

 

— O que o Papa falou é que o anti-semitismo é um pecado. É uma ação positiva. Mas, quanto tempo leva para que isso atravesse a hierarquia do sacerdócio até as pessoas? Leva muito tempo. Foram milhares de anos de doutrinação, não dá para se livrar disso num minuto.

 

Provável sucessor de Bronfman, Singer diz que, apesar de o Congresso não participar da política interna de Israel, defende uma solução de dois Estados. O CJM não pode discutir a política interna israelense, pois representa os judeus de todo o mundo, mas Singer atacou críticos do país, incluindo governos latino-americanos, como o Brasil.

 

— A exigência de muitos países que não são democráticos para que Israel forneça uma democracia total para um vizinho violento é inaceitável. É algo que eles não fazem para seus cidadãos. Se se olha todos os artigos da ONU que são apoiados por tantos países, inclusive da América Latina, não se pode deixar de sentir que o velho anti-semitismo ainda está ardendo.

 

Preconceito diminui, mas ainda existe, diz Singer

 

Singer diz que judeus ainda são colocados num padrão diferente do resto da Humanidade.

 

— Há governos patrocinando anti-semitismo? Certamente não do modo como foi um dia, como o Caso Dreyfuss, ou como durante o tempo dos generais na Argentina ou dos nazistas. Mas ainda há judeus que são colocados num padrão diferente dos outros. Falo de Europa e em alguns casos também da América Latina. Não se pode exigir dos judeus um padrão de comportamento mais alto que os demais. Os judeus querem se manter eles mesmos num padrão mais alto. É um problema nosso. Mas não se pode permitir que líderes que oprimem seu povo exijam que os judeus tenham em Israel a política de “um homem, um voto” para todos, incluindo os que nos matam, e digam que, se Israel não fizer isso, é racista