O deputado federal Francisco Dorneles, ex-ministro da fazenda e sobrinho do saudoso Tancredo Neves, procurou a fierj no intuito de manifestar o seu desejo de homenagear o Dia de Lembrança do Holocausto, instituído pelas Nações Unidas – ONU, para o dia 27 de janeiro.

Abaixo transcrevemos discurso pronunciado nesta quarta-feira, no Plenário da Câmara dos Deputados, pelo ilustre amigo da comunidade judaica, Francisco Dorneles.

No final de ano observamos com atenção notícias de líderes políticos de outras nações, tentando afirmar que o Holocausto não existiu.

O assunto que era apenas considerado na esfera de pseudo-intelectuais, conhecidos como Revisionistas do Holocausto, agora atingiu proporções de discurso de chefe de Estado.

A Revisão do Holocausto NÃO é um fato recente. Ela vem desde o início dos anos 60, quando sobreviventes do regime nazista na Alemanha partiram para uma cruzada ideológica de convencer, principalmente os jovens, de que a matança criminosa de civis, levada a cabo pelas tropas nazi-facistas, era um mito.

Livros foram escritos e traduzidos em dezenas de línguas. Teses foram defendidas tentando demonstrar que as fotos, os filmes, os relatórios, as ordens, os arquivos, os testemunhos vivos nos Julgamentos de Nuremberg eram invenções, eram ficção, que nada havia acontecido na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

O pacote de leis de Nuremberg de 1933 que proibia os judeus de exercerem várias profissões na Alemanha, as leis que proibiam os judeus de se casarem com não-judeus e de votar nas eleições alemãs de 1936; a “Noite dos Cristais”, quando mais de 1.000 sinagogas foram queimadas, mais de 7.500 instalações comerciais de judeus foram destruídas e mais de 30.000 mil judeus foram presos e deportados para campos de concentração nunca foram uma ficção, mas uma realidade, seguramente a realidade mais triste da história do mundo.

Dar ouvidos aos que negam a existência do Holocausto, é escolher não ouvir os gritos de milhões de pessoas deixadas para morrer de fome em guetos. Não ouvir os gritos de terror das pessoas espremidas nos vagões de trem, fechadas durante dias sem água, sem comida, onde os mortos permaneciam de pé entre os vivos, apenas para chegarem aos campos de concentração e extermínio e serem assassinadas e cremadas quase que de imediato.

Dar ouvidos aos que negam o Holocausto, é não ouvir os gritos das mães separadas dos filhos nos campos da morte, das mulheres obrigadas a caminhar desnudas na neve para as câmaras de gás, das crianças submetidas aos mais bárbaros experimentos médicos. É se recusar a ouvir o refrão estampado nos portões dos campos de concentração: “a única saída daqui é pela chaminé”.

Estamos no meio da primeira década do terceiro milênio. Que absurdo maior é discursar perante essa casa e perante os brasileiros sobre racismo, anti-semitismo e negação do Holocausto. Passados 60 anos do final da Segunda Guerra Mundial este discurso deveria ser desnecessário. A matança de mais de 50 milhões de pessoas deveria ter sido o alerta definitivo. O horror da perseguição religiosa, da perseguição por opção sexual, da perseguição em nome de uma suposta superioridade racial deveria ser passado. Mas não é.

Parafraseo o Prêmio Nobel da Paz, o escritor Elie Wiezel, ele mesmo sobrevivente dos campos da morte em seu último discurso na ONU: “Se em 1945 alguém me dissesse que 60 anos depois eu estaria na tribuna da ONU fazendo um discurso sobre o anti-semitismo na atualidade, eu teria dito que a pessoa estava louca”!

E a ONU reconhece o Holocausto. Reconhece o martírio de milhões de judeus, de dezenas de milhares de ciganos, de dezenas de milhares de Testemunhas de Jeová, de dezenas de milhares de deficientes físicos e mentais. Reconhece também os milhões de trabalhadores escravos da Polônia, da França, e de outras nações ocupadas que morreram nas fábricas de material bélico alemãs.

A ONU acaba de estabelecer o dia 27 de janeiro como o “Dia Mundial de Lembrança do Holocausto”, para que todos os países se lembrem, para que todas as pessoas se lembrem e para que nenhuma delas possa negar que o Holocausto tenha existido. Em 27 de janeiro vamos manter acesa a vela em lembrança dos que foram levados pelo turbilhão do fascismo e do preconceito. Neste 27 de janeiro, e a cada 27 de janeiro, enquanto for preciso, vamos dizer em alto e bom som:

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS!

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