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HISTÓRIA DOS JUDEUS NO BRASIL
Salomão Serebrenik
Edição Especial por
motivo da visita do Presidente de Israel – ZALMAN SHAZAR – ao BRASIL (18 a 26
de Julho de 1966)
Rio de Janeiro –
Colaboração de Manchete
INTRODUÇÃO
A história dos judeus no
Brasil constitui um caso único, pois não se conhece outro país no qual se
tenham eles instalado logo nas primícias do respectivo povo, ficando-lhe
continuamente associados e participando do seu desenvolvimento econômico e
social.
De fato, desde o
descobrimento do Brasil até a época presente, os judeus, quase sem
intermitência, aberta ou disfarçadamente, estiveram integrados nos processos
de formação da nacionalidade brasileira.
Isso não obstante, a
historiografia judaica referente ao Brasil não deve ater-se às fases e aos
marcos gerais da evolução política e social do país, e sim orientar-se
essencialmente segundo os fatos e acontecimentos históricos que hajam
repercutido especificamente nas condições de vida individual e sobretudo
coletiva dos judeus.
De acordo com tal
critério, é lícito destacar quatro grandes ciclos na história dos judeus no
Brasil, cada qual comportando diversas fases de ascensão, consolidação e
declínio: 1 – O Primeiro Ciclo Português (1500-1630); 2 – O Ciclo Holandês
(1630-1654); 3 – O Segundo Ciclo Português (1654-1822); 4 – O Ciclo
Cosmopolita (1822-1966).
1 – O PRIMEIRO CICLO
PORTUGUÊS
(1500-1630)
Verificou-se o
descobrimento do Brasil no ano de 1500, quando Portugal se achava no auge da
sua expansão no mundo. Não era então somente a glória militar ou apenas o
desejo de dilatar a fé católica que impeliam os portugueses às suas grandiosas
expedições marítimas. Ao lado desses motivos, ou mesmo acima deles, imperava o
espírito comercial, eis que Portugal visava controlar o intercâmbio com o
Levante e ambicionava concentrar em suas mãos as principais atividades
econômicas daquela época.
Mas apenas esses
motivos, por mais estimulantes que fossem, não teriam bastado para promover o
extraordinário alargamento de Portugal; o grande ciclo das conquistas
portuguesas, entre elas a do Brasil, não se teria concretizado sem o longo
período de descobertas e aperfeiçoamentos científicos que o precedeu, e no
qual tiveram papel de sumo relevo os sábios judeus ibéricos. Estes, aliás,
desde o século XII, vinham se distinguindo sobremaneira nos domínios da
matemática, astronomia e geografia, ciências essas básicas para a arte
náutica, especialmente para a navegação oceânica, e os governantes portugueses
aproveitaram de forma esgotante tal acervo científico israelita em prol da
ascensão de Portugal à posição de grande potência naval. Assim, para a direção
da “Escola de Sagres”, primeira academia portuguesa de navegação, fundada em
1412, foi escolhido um dos mais famosos cartógrafos do século XV, o judeu
Jehuda Crescas, cuja missão essencial era ensinar aos pilotos portugueses
os fundamentos da navegação bem como a produção e o manejo de cartas e
instrumentos náuticos. Mais tarde, outros judeus de renome científico
prestaram sua colaboração à “Escola de Sagres”, destacando-se os sábios
José Vizinho, Mestre Rodrigo e, sobretudo, Abraham Zacuto,
autor do “Almanaque Perpétuo de Todos os Movimentos Celestes”.
Mas, a contribuição
judaica ao descobrimento de novas rotas e de novas terras para a coroa
portuguesa não se limitou ao campo científico de feição preparatória, senão
também se traduziu em participação direta nas temerárias viagens, inclusive na
expedição que resultou no descobrimento do Brasil, eis que, na frota dirigida
por Pedro Álvares Cabral, viajavam como conselheiros especialistas pelo menos
três judeus: Mestre João, astrônomo equipado com os instrumentos de
Abraham Zacuto, Pedro Nunes, navegador, e Gaspar de Lemos,
intérprete e comandante de navio, justamente considerado pelos historiadores
como co-responsável pelo descobrimento do Brasil.
Logo nos primeiros anos
após a descoberta do Brasil, arrefeceu o interesse do rei de Portugal pela
nova terra. A corte era naquele tempo verdadeiramente uma grande casa de
negócio e como, por um lado, estivesse fundamente absorvida com as
dispendiosíssimas expedições à Índia, onde pretendia estabelecer um vasto
império colonial, e, por outro lado, não enxergasse lucros apreciáveis e
imediatos na exploração do Brasil, este ia sendo relegado a um simples ponto
de ligação nas viagens à Índia, uma escala de refresco e aguada.
É assim de todo
compreensível que, tendo o monarca D. Manoel recebido em 1502, de um consórcio
de judeus dirigido pelo cristão novo Fernando de Noronha, uma proposta para
exploração da nova colônia mediante contrato de arrendamento, ele a aceitasse
de bom grado; era a colonização do Brasil que se lhe oferecia, para ser feita
a expensas de particulares, sem riscos e sem ônus ou quaisquer encargos para o
erário público. O contrato, que era um monopólio de comércio e de colonização,
foi firmado em 1503, pelo prazo de 3 anos, tendo sido, com algumas
modificações, sucessivamente renovado até 1515.
A exploração
concentrou-se especialmente na madeira de “pau-brasil” (também chamada naquele
tempo “madeira judaica”), artigo então grandemente procurado nos mercados
europeus para as indústrias de corantes. Tão intenso se tornou o comércio do
pau-brasil durante o arrendamento do país a Fernando de Noronha, e de tal
importância econômica ele se revestiu, que deu origem à denominação de “ciclo
do pau-brasil”, sob o qual é conhecido, na história do Brasil, aquele período,
além de ter determinado a adoção do nome definitivo da terra – Brasil – em
substituição ao de Santa Cruz, como era antes designada.
Admite-se que, ao lado
dos objetivos comerciais, Fernando de Noronha, ao propor ao governo português
o arrendamento do Brasil, visasse ainda facilitar o êxodo dos judeus, então
perseguidos em Portugal. De qualquer forma, é do consenso geral que, nas
expedições comerciais do sindicato de Fernando de Noronha, judeus constituíram
a maioria, cabendo-lhes assim o mérito de terem lançado no solo da nova pátria
os primeiros marcos da civilização.
Na altura do ano de
1515, o Governo de Portugal despertou para a realidade: teria que tomar conta
do vastíssimo território brasileiro se não quisesse expor-se ao risco de
perder o comércio com ele e mesmo a soberania. Efetivamente, esse perigo
existia, pois, àquele tempo, o litoral brasileiro era também freqüentado
grandemente por franceses contrabandistas, que procuravam traficar com os
indígenas, infringindo assim o monopólio português do pau-brasil; era visível,
além disso, que a simples exploração localizada dessa essência florestal não
poderia conduzir à colonização e ocupação da nova terra.
Interrompeu então o
Governo de Portugal o contrato com Fernando de Noronha e passou a tomar
medidas de proteção militar do território brasileiro, bem como a incentivar a
sua colonização mediante a implantação da cultura da cana-de-açúcar. Mas, a
despeito das expressivas facilidades concedidas pelo Governo português nessa
tentativa de colonização dirigida, tais como transporte, equipamentos e
assistência técnica, raros eram os colonos portugueses cristãos que quisessem
emigrar para o Brasil – provavelmente em virtude da atração que sobre eles
continuava a exercer a Índia – razão por que, ao lado de criminosos,
condenados ou exilados, se destacaram os voluntários judeus, que constituíam a
maioria das levas imigratórias.
Verifica-se, assim, que,
não apenas no descobrimento e nas primeiras explorações do Brasil, mas também
na colonização inicial do país, parece ter cabido aos judeus uma honrosa
participação fundamental.
Com os crescentes
incentivos do Governo português à ocupação e ao povoamento do território
brasileiro – inclusive através da sua divisão, entre os anos de 1534 e 1536,
em 14 capitanias hereditárias, entregues a donatários –, novos motivos de
estímulo foram se apresentando para a vinda de judeus ao Brasil. Os
donatários, desejosos de imprimir prosperidade às suas capitanias, porfiavam
em atrair colonos, mas, ainda desta feita, os portugueses cristãos preferiam a
Índia, cujos efeitos atrativos perduravam. Não restava aos donatários senão
recorrer mais uma vez aos judeus, que, aliás, se revelaram excelentes
colonizados: estavam familiarizados com a indústria do açúcar, que já vinha
sendo, desde muitos anos antes, a ocupação preferencial dos judeus das ilhas
da Madeira e de São Tomé – de onde provavelmente foi a cana-de-açúcar
transplantada para o Brasil – e, além disso, eram os colonos judeus hábeis no
trato com o gentio, a cujos hábitos e língua logo se adaptavam, passando a
contar depressa com a sua amizade.
Assim, as possibilidades
de progresso das capitanias dependiam em bom grau dos judeus, e, graças a essa
circunstância, puderam eles gozar de bastante liberdade de costumes. E mesmo
quando, depois de 1548, se implantou no Brasil um novo sistema de governo – o
dos Governos Gerais –, a situação favorável dos judeus não sofreu qualquer
alteração, muito embora na mesma ocasião se fixassem no país os jesuítas. As
condições eram tais que as autoridades se viram forçadas a uma política de
transigência e cautela. Na contingência de ou perderem as esperanças de
colonização do Brasil, ou levarem a bom termo a missão de que se achavam
incumbidas, optaram pela segunda alternativa e, para tanto, tiveram que fazer
tábua rasa das exigências da Inquisição.
Esse panorama de
tolerância contrastava vivamente com a onda de ódio e discriminação que varria
Portugal, onde crepitavam sem cessar as fogueiras dos autos de fé. É assim
compreensível o efeito que entre os judeus de Portugal deviam exercer as
notícias ali chegadas sobre a vida judaica no Brasil. Tangidos pela fúria
avassaladora da perseguição religiosa, sentiam-se os judeus de Portugal
impelidos a tentar vida nova no Brasil, que se lhes afigurava como refúgio
seguro, onde poderiam concretizar-se os seus anseios de paz e liberdade.
Em tais condições, tudo
favorecia o estabelecimento de uma intensa e ininterrupta corrente migratória
de judeus portugueses para o Brasil, onde, prosperando rapidamente, passaram a
formar numerosos núcleos, dando mesmo início a uma razoável vida coletiva,
como o testemunham referências encontradas sobre uma sinagoga que funcionava
numa casa de propriedade do cristão novo Heitor Antunes, na cidade de Salvador
– sede do Governo Geral – e sobre uma outra que fazia parte de um centro
marrano em Camaragibe, capitania de Pernambuco, capitania que chegou a contar
com um “rabi” – o cristão novo Jorge Dias do Caia.
Essa situação bonançosa
dos judeus brasileiros, nos meados do século XVI, pôde concretizar-se em
virtude da existência dos principais fatores que permitem a evolução de uma
comunidade minoritária: havia “suficiência numérica”, tendo os judeus, graças
à intensa imigração e ao crescimento natural, alcançado uma proporção razoável
em confronto com a população geral, o suficiente para se opor ao risco de
assimilação; havia “refrescamento imigratório”, pois o processo de imigração
era contínuo, e as sucessivas levas de judeus portugueses exerciam um papel
reativante, contra-aculturativo; finalmente, havia “liberdade de culto”, com
tolerância bastante para que os judeus mantivessem abertamente suas práticas
religiosas, ainda que algo sincretizadas com o catolicismo.
Entretanto, por volta de
1570, passou a toldar-se o horizonte judaico no Brasil, até então sereno.
Começaram a surgir sinais de restrição à liberdade, que com o tempo se
avolumaram, fazendo definhar a vida coletiva dos judeus – justamente quando
parecia aproximar-se a sua consolidação – e forçando os judeus a retornarem,
qual na sua mãe pátria, a uma vida disfarçada, de forma a guardarem as
tradições apenas no recesso da família e assim mesmo com a devida cautela.
A primeira manifestação
oficial de intolerância verificou-se em 1573, na cidade do Salvador, onde foi
instalado um auto de fé. Paradoxalmente, mas talvez de propósito, não era
israelita a primeira vítima: era um francês que, acusado de heresia, foi
condenado e queimado vivo. O balão de ensaio não surtiu, porém, os esperados
efeitos junto à opinião pública, pelo que a Inquisição teve que encerrar pouco
depois a sua nefanda tentativa.
Alguns anos decorridos,
entretanto, ela reiniciou a conspirata, até que, em 1591, veio ao Brasil a
missão conhecida como “Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil
Pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça”. Na Bahia, permaneceu a Inquisição
durante dois anos, até 1593, seguindo então o Inquisidor para Pernambuco,
Itamaracá e Paraíba, onde ficou até 1595.
Em 1618, a Bahia foi
alvo de uma nova visitação do Santo Ofício, que ficou a cargo do Inquisidor de
Évora, o Bispo D. Marcos Teixeira. Diante dessas comissões inquisitoriais,
que, aliás, se limitaram ao Nordeste do Brasil, foram denunciados inúmeros
marranos, entre eles muitos senhores de engenhos de açúcar, fato que propiciou
o primeiro movimento migratório interno dos judeus Brasileiros, os quais
abandonaram o Nordeste em busca do Sul, especialmente da capitania de São
Vicente (São Paulo), que era a parte mais liberal do país.
Não se sabe ao certo dos
motivos das duas visitações do Santo Ofício ao Brasil. É todavia de se
presumir que tivessem fundo político, receosa como se achava a coroa
portuguesa de que os cristãos novos brasileiros viessem a ajudar a Holanda,
que então cobiçava conquistar o Brasil. Tal suspeita tinha certo fundamento.
Com efeito, em virtude das crescentes perseguições aos judeus em Portugal nas
últimas décadas do século XVI, eles passaram a emigrar, não só para o Brasil,
mas também, em grandes levas, para vários países da Europa ocidental,
sobretudo para a Holanda, onde florescia o comércio e reinava tolerância
religiosa, o que permitiu a célere formação de uma ampla comunidade israelita,
com centro na cidade de Amsterdã, justamente cognominada de “Nova Jerusalém”.
E é certo que essa simultânea emigração dos judeus portugueses, para o Brasil
e para os Países Baixos, propiciou o estabelecimento de um elo comercial e
afetivo entre os judeus brasileiros e os judeus portugueses da Holanda.
Desiludidos que se
achavam com a mãe-pátria – onde seus parentes e correligionários sofriam
privações e perseguições tremendas –, e já agora decepcionados com o próprio
Brasil português, onde tudo a princípio parecia sorrir-lhes, mas onde passavam
a acumular-se indícios hostis, os judeus brasileiros, instintivamente, na
procura de algum outro ponto de apoio, sentiam-se impelidos a um intercâmbio
cada vez mais estreito com os judeus portugueses residentes na Holanda, onde a
liberdade, nos fins do século XVI, era absoluta em todos os terrenos.
Era a possibilidade que
eles vislumbravam de vir a ser melhorada a sua sorte graças à conquista do
Brasil por uma outra potência – no caso, a Holanda!
2 – O CICLO HOLANDÊS
(1630-1654)
A esperança dos judeus
do Brasil de que a sua sorte melhoraria graças a alguma forma de intervenção
holandesa não falhou. Finalizando uma série de tentativas de conquista do
Nordeste brasileiro, através de invasões da Bahia, nos anos de 1624 a 1627 – a
primeira das quais inicialmente favorável, pois conseguiram dominar a cidade
do Salvador por quase um ano –, os holandeses afinal lograram seu intento em
15 de fevereiro de 1630, quando atacaram Pernambuco com uma poderosa esquadra
de 70 navios, tripulada e guarnecida por 7000 homens, e assim iniciaram a
ocupação do Nordeste, a qual iria durar até 1654.
Foram poucos os anos de
domínio holandês pacífico, mas bastaram para que os judeus, numa rapidez
.impressionante, alçassem a um nível excepcional a sua vida econômica, social
e cultural, dentro do arcabouço de uma organização coletiva, vindo a
constituir no Nordeste do Brasil uma comunidade das mais florescentes do mundo
de então.
Antes da conquista
holandesa, os judeus brasileiros exerciam, em larga escala, as atividades de
plantadores de açúcar, mas os donos de engenho representavam apenas uma
percentagem razoável, e os magnatas não passavam de uma escassa minoria.
No mais, a colônia
judaica era constituída de pequenos comerciantes e de profissionais manuais
mal remunerados. Com o advento dos holandeses e a decorrente implantação de
uma grande tolerância religiosa, o panorama foi se alterando. Levas
ininterruptas de judeus afluíam a Pernambuco de vários países, especialmente
da Holanda, trazendo cabedais, experiência comercial e um prodigioso espírito
de realização.
Esses judeus vindos da
Holanda – e que em grande parte eram ex-refugiados de Portugal, Espanha e
França – tinham a vantagem de falar vários idiomas: espanhol, francês, ladino,
holandês, afora o mais importante, o português, que era a língua falada no
Brasil; era-lhes fácil assim servir de intérpretes para os milhares de homens
do exército e da marinha holandesa, constituídos de mercenários – holandeses,
ingleses, franceses, alemães, polacos e outros – que não falavam o português.
De simples intérpretes, foram rapidamente passando a cambiadores e
comerciantes, de um modo geral a intermediários, profissão que se tornou quase
monopólio dos judeus, com eles não podendo competir os pequenos negociantes e
operários brasileiros e flamengos. Não tardou que os judeus se tornassem
grandes proprietários urbanos e rurais, passando a controlar a vida econômica
da Nova Holanda brasileira, merecendo lembrar, como testemunho disso, que a
principal rua do Recife era conhecida como “Rua dos Judeus” e o porto era
chamado “cais dos judeus”.
Paralelamente com a
prosperidade econômica dos judeus no Brasil holandês, desenvolveu-se com vigor
a sua vida coletiva. Para tanto, contribuiu fundamentalmente a liberdade de
culto implantada pelos holandeses, sobretudo durante o governo do conde
Maurício de Nassau, no período de 1635 a 1644. Havia ainda, como circunstância
essencial, o crescimento contínuo e sensível da população judaica e sua
concentração preponderante numa área restrita, em torno da cidade do Recife.
Esse crescimento populacional resultou principalmente da intensa imigração
oriunda da Holanda, de cujo porto Amsterdã partiam constantemente naus
carregadas de judeus e conversos, sendo que, só de uma feita, em 1642,
embarcaram 600; mas, aos imigrantes do estrangeiro, cabe também acrescentar os
judeus que, de outras partes do próprio Brasil, vinham para Pernambuco, em
busca de liberdade religiosa. Não se sabe exatamente o número de judeus no
Brasil holandês, variando as estimativas entre 1.500 e 5.000; mas, admite-se
que, no apogeu do desenvolvimento da comunidade judaica da Nova Holanda, os
judeus representavam cerca de metade da população branca civil, e no Recife
havia judeus em tamanho número que, à primeira vista, se tinha a impressão de
uma cidade puramente judaica. Para se ter uma idéia da importância de que,
naquele tempo, se revestia um núcleo israelita de 1.500 almas, segundo a menor
das referidas estimativas, basta lembrar que a própria comunidade judaica de
Amsterdã, no seu pleno fastígio, não era mais numerosa.
Ao alcançarem a forma de
coletividade organizada, os judeus de Pernambuco contavam com duas sinagogas e
um cemitério próprio, e possuíam uma comunidade sagrada – Kahal Kadosh
– chefiada por uma diretoria, sendo conhecidos os componentes de uma delas:
David Senior Coronel, Dr. Abraham de Mercado, Jacob Mucate e Isaac
Castanho. Havia ainda a Congregação Zur Israel (A Rocha de Israel)
do Recife, que mantinha um “Pinkes” (livro de atas) e baixava “haskamot”
(regulamentos). Assim, os “regulamentos” revistos em 1648 estabeleciam que
todos os judeus residentes no “Estado do Brasil” e todos os futuros imigrantes
tornavam-se automaticamente membros da Comunidade Judaica e deviam inscrever
os nomes no “Pinkes”, como demonstração de que aceitavam os regulamentos.
Também na ilha de Itamaracá, havia uma comunidade organizada, e era presidida
por um rabino próprio, Jacob Lagarto, que foi, aliás, o primeiro
escritor talmúdico na América do Sul.
Em tal ambiente de
segurança e de organização coletiva, a consciência de grupo avultou, chegando
as festas judaicas a ser celebradas publicamente com procissão nas ruas. O
auge desse desenvolvimento sócio-cultural foi atingido pelos judeus de
Pernambuco em 1642, quando providenciaram a vinda da Holanda de um insigne
líder espiritual, Isaac Aboab da Fonseca, que veio acompanhado do
“hazan” Moisés Rafael de Aguiar. Isaac Aboab permaneceu à testa da
comunidade judaica do Brasil até o fim do domínio holandês, tendo desenvolvido
um vasto programa de trabalhos, rabínicos e sociais, sem prejuízo da atividade
literária, da qual é testemunho a obra “Miiméi Iehuda” que ele escreveu em
colaboração com Moisés Rafael de Aguiar, e que tratava da vida cultural dos
judeus brasileiros.
Em 1645, tendo Maurício
de Nassau deixado o governo, entrou em fase de declínio a vida judaica no
Brasil, fase que iria terminar um decênio mais tarde com a melancólica
liquidação da pujante comunidade que se havia erguido – aparentemente com
tanta solidez – no Nordeste do Brasil.
A saída de Nassau
favoreceu sobremodo o nascimento da insurreição pernambucana, pois, em
substituição a esse notável estadista, que havia logrado granjear as simpatias
gerais da população, ficara a administração do domínio holandês entregue a um
triunvirato composto de indivíduos completamente incapazes, que não tardaram a
implantar um regime opressor e tirânico.
Os judeus de Pernambuco
cedo deram-se conta do que a nova situação viria representar para eles.
Previram facilmente que, sem a política tolerante e apaziguadora do príncipe
de Nassau, seria inevitável o enfraquecimento e queda do domínio holandês,
ficando eles irremediavelmente expostos à sanha dos insurrectos pernambucanos.
Em vista disso, iniciaram o processo de retorno à Holanda, tendo emigrado em
alguns anos cerca da metade da população judaica, sobretudo os negociantes
mais ricos.
O comércio começou então
a decair, o dinheiro passou a escassear, e as tropas já se recusavam a
combater, chegando mesmo a, mediante suborno, desertar para o exército
português, que, em verdadeiro contraste, possuía moral elevadíssimo. Para
agravar a situação, a Holanda, que então se achava em guerra com a Inglaterra,
não podia prestar a necessária ajuda à colônia decadente, e os reforços, que
todavia lhe mandava, eram insuficientes e extemporâneos.
Embora a conjuntura se
apresentasse nitidamente desfavorável aos holandeses, os judeus que
permaneceram em Recife – cerca de 700 – resignaram-se a aguardar até o último
instante o desfecho da luta, ficando fielmente ao lado dos holandeses e com
eles compartilhando de todos os horrores do longo cerco da cidade.
Sobre essa atitude de
inteira fidelidade, assumida pelos judeus remanescentes de Recife – no mesmo
sentido da anterior solidariedade judaica, demonstrada por ocasião das
invasões holandesas – não faltam pronunciamentos desfavoráveis. Há, com
efeito, quem a considere uma espécie de deslealdade ao Brasil, É um erro que
cabe corrigir. Merece notar desde logo que o Brasil não estava propriamente em
jogo. Aos judeus impunha-se escolher entre dois ocupantes, entre duas
potências estrangeiras: Portugal e Holanda. De um lado – o país que perseguia,
expulsava e queimava vivos os judeus; do outro – a nação que agia para com os
judeus, tanto na metrópole como nas colônias, com a maior tolerância
religiosa. De um lado – a Inquisição e os autos de fé; do outro – a liberdade
de consciência. Entre os dois senhores, não havia outra possibilidade de
escolha!
E aliás, procedendo como
procederam, os judeus guardaram uma linha de impecável coerência. Eles que,
por todas as formas a seu alcance, ajudaram os holandeses a conquistar o
Nordeste brasileiro, na esperança, não desmentida, de obterem no Brasil um lar
tranqüilo, não poderiam abandonar os aliados e protetores da véspera no
momento em que a sorte começava a faltar-lhes. Tal como souberam os judeus da
Nova Holanda armar os seus sonhos – que chegaram a ver em boa parte realizados
–, também mostraram saber suportar a sua ruína, lutando bravamente até a queda
final da sua cidadela, com o que se haveria de encerrar o ciclo mais
fastigioso, embora efêmero, da vida judaica no Brasil colonial.
3 – O SEGUNDO CICLO
PORTUGUÊS
(1654-1822)
Com a queda de Recife e
subseqüente capitulação dos holandeses, entrou em plena desagregação a
comunidade israelita do Nordeste do Brasil.
Uma pequena parcela
resignou-se à permanência no país, dispersando-se pelo seu território,
enquanto o grosso optou pela emigração. Destes, um grupo – constituído
provavelmente dos mais ricos e mais relacionados na Holanda – decidiu retornar
a esse país, ao passo que a maioria preferiu enfrentar o desconhecido,
aventurando-se em direção das mais longínquas paragens das três Américas –
Guianas, Antilhas e Nova Holanda norte-americana –, onde lançaram a afirmação
pujante de sua vitalidade, contribuindo eficazmente para o desenvolvimento
econômico de várias colônias francesas, inglesas e holandesas, e nelas
implantando numerosas aglomerações judaicas, uma das quais viria a ser nos
tempos modernos a extraordinária comunidade israelita dos Estados Unidos da
América do Norte. Nas Guianas, os judeus fugitivos fixaram-se de começo em
Caiena e, mais tarde, em Suriname, onde organizaram uma comunidade duradoura,
que chegou a contar mais de 1.300 almas; seu núcleo mais importante – com
1.045 judeus numa população de 2.000 – ficava nos arredores de Paramaribo e
era conhecido como “Savana Judea”. Nas Antilhas, distribuíram-se entre a
Martinica, Guadalupe, Barbados, Jamaica e São Domingos, dedicando-se à sua
tradicional ocupação – a indústria açucareira. Graças a esse concurso dos
judeus foragidos do Brasil, conseguiu a América Central estabelecer o seu
monopólio no mercado mundial do açúcar, monopólio esse que antes estava nas
mãos do Brasil. Forneceram, assim, aqueles judeus às colônias
centro-americanas os elementos de riqueza que, por influência da desastrada
política dos monarcas portugueses, o Brasil desprezara!
Na América do Norte, um
grupo de 23 judeus, que deixou Recife logo depois da sua queda, acampou, em 12
de setembro de1654, à margem do Hudson, na aldeia de Nova Amsterdã (atual Nova
York), então capital da Nova Holanda. Vencendo toda a sorte de dificuldades
opostas pelo governador da colônia, o autocrata e anti-semita Pierre
Stuyvesant, os judeus originários do Brasil foram se radicando na nova pátria,
crescendo em número, organizando-se em comunidade e disseminando-se pelo país,
onde, com o correr dos séculos, viria desenvolver-se a maior das coletividades
israelitas do mundo.
Como já foi mencionados
o êxodo que se verificou após a expulsão dos holandeses não abrangeu a
totalidade da população judaica do Nordeste dos Brasil, tendo um bom número de
marranos resolvidos permanecer na terra que haviam aprendidos a amar. E uma
vez apagados os primeiros ressentimentos, puderam esses judeus remanescentes
difundir-se pacificamente pelo território brasileiro, inclusive em áreas do
próprio Nordeste, reduzindo ao mínimo as aparências da sua origem judaica.
Acresceu que, após a
morte do rei D. João IV em 1656, a Inquisição fez recrudescer as perseguições
aos judeus em Portugal, culminando com a promulgação da lei de 9 de setembro
de 1683, que determinava a expulsão dos cristãos novos e a aplicação da pena
de morte aos que voltassem ao país. Esse fato contribuiu para que se
intensificasse a transmigração de cristãos novos portugueses para o Brasil,
cuja população judaica pôde, assim, não somente recompor-se do tremendo abalo
sofrido com a desagregação pós-holandesa, mas ainda experimentar um razoável
crescimento numérico.
Mas essa acomodação, tão
bem levada a efeito pelos judeus brasileiros na segunda metade do século XVII,
não logrou transpor o umbral do século seguinte, quando, afinal, a Inquisição
de Lisboa, cujas garras até então mal haviam conseguido arranhar a população
judaica do Brasil, acabou estendendo sobre este país a sua implacável rede de
perseguições. A sanha natural dos inquisidores viu-se atiçada pelas renascidas
perspectivas de maciços confiscos, eis que os judeus brasileiros, graças ao
seu ajustamento econômico operado na parte final do século XVII, e ao
posterior enriquecimento em conseqüência da intensa exploração das minas de
ouro e do comércio de diamantes no começo do século XVII, haviam voltado a
constituir uma parcela das mais opulentas da colônia.
Essa onda de terror que,
com algumas intermitências, se desdobrou por longos 70 anos, com especial
virulência nos períodos de 1707 a 1711 e 1729 a 1739, conferiu à primeira
metade do século XVII as características de época negra da história dos judeus
no Brasil. E somente após 1770, começaram a criar-se condições outras, que
viriam extirpar para sempre o cancro da Inquisição, que tanto manchara a
história de Portugal e tanto fizera decair esse grande império dos tempos
manoelinos.[1]
Até hoje não se sabe ao
certo quantos judeus oriundos do Brasil caíram vítimas da Inquisição de
Portugal. Há quem avalie em apenas 400 o número dos judaizantes brasileiros
processados, dos quais não mais de 18 teriam sofrido a pena capital; mas essas
hão de ser cifras por demais modestas, longe de darem uma idéia exata da
extensão que na verdade a tragédia assumiu, pois que, ainda hoje, permanecem
inexplorados, nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, 40.000 processos da
Inquisição, cuja investigação revelaria certamente à História toda a hediondez
dessa fanática instituição.
Em 1770, a vida judaica
no Brasil passou a beneficiar-se de um liberalismo crescente como reflexo das
mudanças havidas em Portugal, onde a Inquisição acabava de entrar em seus
últimos estertores, golpeada de morte pelo clarividente e poderoso ministro
Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal. O
ato decisivo, conseguido pelo Marquês junto ao rei D. José I, foi a
promulgação, em 25 de maio de 1773, de uma lei que extinguiu todas as
diferenças entre cristãos velhos e cristãos novos, lei essa que, um ano mais
tarde, em 1° de outubro de 1774, foi regulamentada por um decreto que passou a
sujeitar os veredictos do Santo Ofício à sanção real.
A repercussão das
disposições pombalinas no Brasil foi automática e eficaz. Após setenta anos de
perseguições tremendas, estavam os judeus e cristãos novos brasileiros
ansiosos de se igualarem aos demais habitantes do país, e o liberalismo da
nova lei foi um franco estímulo a esse anseio de assimilação. Bem entendido,
tal processo de integração não se fez de pronto, nem de maneira cabal, pois
que não desaparecera a desconfiança com relação às reviravoltas políticas da
coroa portuguesa. Foram necessários 50 anos para que, alcançada a
Independência do Brasil em 1822, e promulgada a Constituição de 1824,
desaparecesse, pela via aberta da assimilação, o problema judaico brasileiro
de gênese portuguesa.
É oportuno lembrar que
foi marcante a contribuição dos próprios judeus brasileiros para o movimento
emancipador que viria trazer a sua extinção como grupo pela completa
integração na coletividade nacional. Sirvam de testemunho as palavras do
grande historiador brasileiro Adolfo Varnhagen: “Os judeus foram os pioneiros
da Independência do Brasil. A sua valiosa contribuição, a sua tenacidade de
raça eleita, de povo perseguido, constituíram os alicerces onde colocou-se o
lábaro ardente da esperança da libertação do Brasil do jugo da mãe-pátria.”
4 – O CICLO
COSMOPOLITA
(1822-1966)
Uma vez emancipado o
país, e implantada liberdade integral de consciência, nada mais restava que
pudesse sustentar a sobrevivência coletiva dos judeus, os quais, tão logo
perceberam que desta vez a liberdade viera em caráter duradouro, cortaram as
últimas e débeis amarras que os prendiam ao passado judaico e difundiram-se
rapidamente no seio da população geral.
O único fator que, nessa
conjuntura, talvez ainda lograsse reacender a chama pretérita e preservar
aqueles judeus da assimilação total teria sido uma imigração maciça e
homogênea de judeus de nível cultural elevado e de tradições afins. Mas, essa
possibilidade única inexistiu de todo, pois que, depois da Independência,
enfraqueceu de muito o movimento imigratório no Brasil, sendo que a imigração
judaica praticamente se anulou.
Cabe, apenas, abrir um
parêntese para uma exceção verificada no extremo norte do país. Logo após a
Independência, principiaram a afluir para a Amazônia judeus provenientes do
Marrocos. Tratando-se de uma imigração de origem nova, sem qualquer afinidade
histórica ou cultural com a população brasileira da região, fácil e cômodo foi
a esses judeus marroquinos conservarem sua religião e tradições, cedo vindo a
fundar, no ano de 1824, uma sinagoga de nome “Porta do Céu”, na cidade de
Belém.
Essa aglomeração judaica
da Amazônia, que com o decorrer dos anos foi sendo ampliada de maneira
contínua com elementos oriundos da mesma região norte-africana, disseminou-se
pelos pontos estratégicos do grande rio, passando a desempenhar um papel
relevante no desenvolvimento econômico da região, bem como no intercâmbio
comercial com o estrangeiro. Entretanto, o agrupamento judaico da longínqua
Amazônia, isolado cultural e materialmente das regiões vitais e mais
adiantadas do país, não podia, evidentemente, exercer qualquer influência
sobre o judaísmo indígena que, de resto, já havia entrado então na sua fase de
total oclusão. E assim, durante a primeira metade do século XIX, coube à
remota e minúscula comunidade israelita-marroquina da Amazônia – que mal
contaria duas centenas de almas – o papel de sustentáculo único da
continuidade judaica no Brasil.
Entretanto, no limiar da
segunda metade do século, começou a modificar-se a situação. Sem prejuízo do
prosseguimento da migração judaica norte-africana para a região amazônica,
foram chegando ao Rio de Janeiro – de onde irradiavam para os Estados
vizinhos, especialmente para São Paulo e Minas Gerais – judeus procedentes de
vários países da Europa Ocidental – franceses, ingleses, austríacos e alemães,
sobretudo alsacianos – a tal ponto que, em 1857, já sentiram a necessidade de
fundar uma sinagoga na capital do país.
As duas aglomerações – a
da região amazônica e a do Rio de Janeiro – não mantinham entre si quaisquer
relações de grupo e apresentavam, aliás, características diferentes.
A coletividade amazônica
era mais estável, eis que os judeus marroquinos vinham para o extremo norte do
Brasil com a intenção de ali se radicarem, tendo eles, em conseqüência,
alargado com o tempo o seu campo de atividades, de molde a abranger não
somente o comércio interno e o de exportação e importação – este especialmente
de tecidos – mas também o setor da navegação e da exploração de seringais,
afora a participação nas atividades públicas e no exercício de cargos
oficiais.
Já no Sul, os judeus,
originários do oeste europeu, vinham antes com o objetivo de prosperar e de em
seguida regressar aos países de origem, embora muitos acabassem permanecendo
no Brasil, ou porque não houvessem logrado o desejado enriquecimento rápido,
ou porque já se sentissem dominados pelo apego à nova terra. Em face daquela
predisposição inicial, limitavam-se os judeus dos Rio de Janeiro e dos Estados
vizinhos às ocupações comerciais, sem nenhuma tentativa de integração em
outras atividades econômicas, de feição mais estável e caráter mais
fundamental, e muito menos procuravam imiscuir-se na vida pública do pais.
Na última década do
século XIX e durante a primeira do século XX – 20 anos estes que constituem a
verdadeira fase pré-imigratória moderna – a imigração judaica cresceu de
vulto, multiplicando-se os países de procedência e também as regiões em que os
imigrantes passavam a fixar-se no Brasil. Enquanto, até então, os imigrantes
judeus provinham quase exclusivamente do Norte da África e do Ocidente
europeu, já agora passaram a chegar também levas de judeus do Mediterrâneo
Oriental – Grécia, Turquia, Síria, Líbano e Palestina – bem como da Rússia e
países vizinhos, localizando-se de preferência na zona sudeste do país – Rio
de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – mas também se disseminando, em pequenos
núcleos, por muitos outros Estados, tanto do Sul como do Nordeste.
Não obstante o caráter
rapsódico da imigração judaica nessa fase (1890-1910), alguns pontos
peculiares podem ser estabelecidos:
1) No extremo sul do
país, a comunidade judaica originou-se de uma tentativa de colonização
empreendida pela JCA (Jewish Colonization Association), a qual, na primeira
década do século XX, adquiriu terras no Rio Grande do Sul e nelas instalou
colonos trazidos principalmente da Rússia. Ao contrário do que ocorreu na
Argentina, a iniciativa da JCA no Brasil não logrou seu objetivo, em boa parte
devido à má escolha da região, tanto que, em poucos anos, as colônias
Philipson e Quatro Irmãos viram-se abandonadas pelos colonos, que foram
trocando a agricultura pelo comércio nas vilas e cidades próximas, acabando
por se concentrarem na capital do Estado, a próspera cidade de Porto Alegre,
onde com o tempo se desenvolveu uma significativa coletividade judaica – a
terceira do país.
2) Nas cidades do Rio de
Janeiro e São Paulo, a parcela mais substancial dos imigrantes proveio de uma
pequena região do sul da Rússia, mais precisamente, da parte norte da
Bessarábia; é, assim, historicamente justo reconhecer os imigrantes
bessarabianos do início do século XX como grupo germinativo da coletividade
judaica moderna do Brasil.
3) O quadro das
principais concentrações israelitas do Brasil, no ano de 1910 – às vésperas do
início da vida judaica organizada no país – pode ser apresentado nestes termos
sucintos: no extremo norte – o agrupamento da Amazônia, datando de 1822,
isolado e conservantista, de origem norte-africana; no extremo sul – o
conjunto de colônias judaicas do Rio Grande do Sul, com imigrantes de origem
russa; e no sudeste – o possante binário Rio de Janeiro-São Paulo, com
numerosos núcleos satélites, resultante de uma imigração cosmopolita.
Conquanto ainda não
existissem quaisquer ligações de grupo mais firmes entre essas diversas
aglomerações judaicas, é entretanto fato digno de registro que em 1910 já
existia no Brasil uma coletividade judaica em potencial, que praticamente
abarcava todo o território nacional; uma rica infra-estrutura, sobre a qual
viriam em breve apoiar-se as vastas e homogêneas ondas imigratórias do leste
europeu – Bessarábia, Ucrânia, Polônia, Lituânia, Romênia – consolidadoras da
moderna coletividade israelita do Brasil[2].
Em 1911 é que teve
verdadeiramente início a vida judaica organizada no Brasil, em seu ciclo
moderno. No Rio de Janeiro, foi fundada, no referido ano, uma sinagoga – Bet
Iacov; no ano seguinte – a sociedade de “Ajuda Fraternal” Achiezer; em 1913, a
organização sionista Tiferet Zion; e em 1916 – o Comitê em prol das Vítimas da
Guerra, bem como a Biblioteca Sholem Aleichem – esta de se considerar a
primeira instituição cultural judaica do Brasil – afora outras associações de
menor vulto. Em São Paulo, na mesma época, foi fundada, em 1912, a Comunidade
Israelita; em 1915 – a Sociedade Beneficente Feminina; e em 1916 – a
Instituição Beneficente “Ezra”, a Biblioteca Judaica, o centro sionista
“Ahavas Zion”, e o Comitê de Auxilio às Vítimas da Guerra. Também em Porto
Alegre foram, no correr da segunda década, criadas várias instituições
religiosas, filantrópicas e educacionais, merecendo-se destacar a fundação, em
1915, dos primeiro órgão de imprensa judaica no Brasil, um semanário redigido
em iídiche, sob o nome de “Di Mentshait” (A Humanidade). Cabe, finalmente,
mencionar ainda a cidade de Curitiba, onde, já em 1913, a reduzida população
judaica se organizou em torno de um centro social.
Mas, se foi tão dinâmica
a atuação organizacional judaica ao longo do segundo decênio do século, é
certo que numericamente a coletividade permaneceu pequena, e só depois de
terminada a Primeira Guerra Mundial é que a imigração teve um forte
incremento, de um lado porque então já se desvanecera entre os judeus
brasileiros a aspiração de regressar à Europa, pelo que mandavam buscar seus
parentes para aqui se radicarem, e do outro lado porque, naquela altura, o
governo americano havia imposto severas restrições à imigração nos Estados
Unidos. Sobretudo no decorrer do período 1920-1930, foram ininterruptas as
levas de imigrantes judeus vindos da Europa oriental, circunstância que deu
extraordinário impulso á vida coletiva judaica no Brasil; com singular
entusiasmo, foram sendo criadas, inclusive nas cidades menores, instituições
de toda sorte – sinagogas, escolas, sociedades beneficentes, bibliotecas,
centros sociais, clubes juvenis, grupos dramáticos e órgãos de imprensa.
Quanto ao campo
educacional – muito ajudado pela JCA – basta mencionar que, ao findar a
terceira década do século, havia funcionando no país nada menos que 27 escolas
judaicas. No setor da imprensa, há a assinalar, naquele período, o surgimento
dos jornais Dos Idishe Vochenblat (Semanário Israelita), fundado em 1923, Di
Idishe Folkstzaitung (A Gazeta Israelita), em 1927, órgão de elevado gabarito,
e Di Idishe Presse (A Imprensa Israelita), em 1930, todos surgidos no Rio de
Janeiro, e A Gazeta Israelita, fundada em 1931, em São Paulo. E mesmo a
produção literária eclodiu nesse período com livros de poesias e contos, em
hebraico e iídiche.
Cabe ressalvar apenas
que a situação econômica da coletividade judaica não acompanhou esse surto
surpreendente da sua vida sócio-cultural, e isto, em parte, por causa dos
reflexos da depressão mundial. Com exceção de uma parcela que se encaminhou
para a indústria (têxtil, de confecções e de móveis), especialmente em São
Paulo, e para o comércio varejista (tecidos e móveis), o resto, ou seja a
grande maioria dos imigrantes, dedicou-se ao comércio ambulante (klientéle),
ramo este trabalhoso e de rendimento em geral discreto.
No ano de 1933, a vida
judaica penetrou em nova fase, tumultuária e decadente. Como fator mais
ponderável, é de se apontar o regime restritivo à imigração, instituído em
1931. Sem o constante refrescamento imigratório que caracterizou o decênio
anterior, só a inércia fez com que a vida coletiva judaica ainda prosseguisse
viçosa por mais uns poucos anos. Em acréscimo, sobreveio no ano de 1933 o
movimento nazista, cujo espectro acabou atingindo as plagas do Brasil;
fascinados pelo prestígio alemão, alguns componentes de um partido brasileiro
quiseram, numa imitação ingênua, disseminar pelo Brasil o mito racial, mas,
mesmo então, com todas as condições conjunturais favoráveis, tanto no país
como no campo internacional, a tentativa fracassou redondamente, por falta de
ressonância da parte do povo.
Liberta dos sobressaltos
provocados por esse ensaio anti-semita, a coletividade judaica passou,
entretanto, a sofrer os efeito de certos atos legais restritivos às atividades
de estrangeiros em geral, um de tais atos, baixado em 1939, exigindo que os
jornais em língua estrangeira inserissem a tradução dos artigos publicados, e
o outro, em 1941, interditando totalmente a publicação de jornais em línguas
estrangeiras; além disso, ficou praticamente proibido usar o iídiche nas
reuniões e assembléias.
Amordaçada, assim, a
imprensa iídiche – embora sem intenção específica – e freada a liberdade de
reunião, a vida social judaica ficou por vários anos reduzida a atividades
religiosas e beneficentes, cabendo mencionar a este respeito o valioso
concurso trazido pelos imigrantes judeus alemães, que começaram a afluir ao
Brasil depois de 1933, e que, com muita eficiência, organizaram suas próprias
instituições.
Resta entretanto
ressalvar que a educação judaica não decaiu de ritmo durante essa fase
sombria, o mesmo se dando com a produção literária, que prosseguiu
razoavelmente nas suas proporções discretas. E quanto à imprensa judaica, que
teve, lamentavelmente, silenciados os seus órgãos em iídiche, há a assinalar
de positivo o surgimento, no Rio de Janeiro, em 1942, de uma bem estruturada
revista semanal, “Aonde Vamos”, redigida em português, idioma em que também
foram publicados com êxito os periódicos “Jornal Israelita” (Rio) e “A
Civilização” (São Paulo).
Terminada a Segunda
Guerra Mundial, em 1945, os ideais democráticos voltaram a dominar o país,
dando azo a que se reanimasse a vida coletiva dos judeus do Brasil. Conhecido
o saldo trágico da hecatombe européia, com a perda pesadíssima de seis milhões
de almas judias, cresceu sobremaneira entre os judeus brasileiros a
consciência de solidariedade grupal, o senso de responsabilidade pela
sobrevivência judaica no mundo, agora repousando mais acentuadamente sobre os
ombros do judaísmo americano. Por um lado, formaram-se e reorganizaram-se
então instituições para ajudar os prováveis imigrantes da Europa, indo-se ao
extremo de fundar duas grandes escolas profissionais “ORT”, no Rio e em São
Paulo, destinadas a facilitar aos refugiados a sua integração na economia do
país; por outro lado, revigorou-se o ideal sionista e multiplicaram-se as
respectivas atividades, que atingiram o auge com o advento do Estado de
Israel, em 1948.
A educação judaica
intensificou-se sensivelmente depois de 1945, embora não chegasse jamais a
contemplar senão 20 a 30% das crianças em idade escolar. A imprensa em iídiche
ressurgiu com muita vitalidade a partir de 1947, com a Idishe Presse e Idishe
Tzaitung, no Rio de Janeiro, e Undzer Shtime e Der Naier Moment, em São Paulo,
ao lado de diversos periódicos judaicos em português. E a produção literária
prosseguiu satisfatoriamente, com vários livros publicados de gênero
diversificado, em iídiche e português, sobre temas judaicos e gerais. Também
as atividades associativas tiveram forte incremento, com a fundação de
numerosas instituições religiosas e clubes recreativos-culturais de alto
gabarito, no Rio de Janeiro e em São Paulo, e mesmo nos centros menores, afora
a criação de Federações e uma Confederação Nacional. Finalmente, a situação
econômica no pós-guerra experimentou enorme avanço, tendo os judeus
brasileiros quase abandonado a mercancia ambulante para progressivamente
penetrar na indústria e no grande comércio. Entretanto, a partir de 1955, a
vida sócio-cultural judaica passou a definhar qualitativamente, fato este que
se pode atribuir a várias circunstâncias de efeito conjugado: 1) a sensível
melhoria do nível econômico dos judeus brasileiros e conseqüente
enfraquecimento do seu espírito gregário; 2) a consolidação e relativa
normalização do Estado de Israel e conseqüente redução do seu poder
galvanizador; 3) a irresistível ação assimilante do ambiente não-judaico; 4) o
império da improvisação nas atividades de criação e condução das instituições,
sem planejamento e sem enquadramento democrático em entidades-teto; e 5) a
falta de entrosamento entre os líderes da geração pioneira, refratários à
evolução do processo social judaico, e a nova geração, ávida de uma orientação
mais condizente com o espírito da época.
CONCLUSÃO
A história dos judeus no
Brasil é uma longa e honrosa trajetória, pontilhada sem dúvida de sofrimentos,
mas também repleta de sucesso, traduzido em contribuições positivas e
fundamentais para o desenvolvimento do país e para a formação do seu povo.
Na exploração das costas
brasileiras, no desbravamento do interior, no progresso da lavoura, do
comércio e das indústrias, enfim nos movimentos ideológicos de emancipação
política da terra – em tudo os judeus dos séculos passados deixaram marcas
indeléveis da sua participação ativa, e tudo eles impregnaram do seu senso
progressista e dos seus valores de cultura; por outro lado, em conseqüência de
ampla miscigenação ao longo de centenas de anos, entraram eles poderosamente
na composição étnica nacional, e transmitiram ao brasileiro de hoje largos
contingentes éticos, antropológicos e culturais.
Os judeus brasileiros do
século XX vêm prosseguindo na mesma trilha construtiva e, conquanto não
guardem estrita continuidade com as populações israelitas de antanho, eles
têm, como coletividade, todos os motivos para se apossarem daquele patrimônio
histórico, de o integrarem com a sua própria contribuição e, portanto, de se
terem por legítimos partícipes da nacionalidade.
Eis que seus ancestrais,
por quatro séculos, foram deixando um legado precioso ao país. Quatro séculos:
nem sequer um dia menos que a própria história do Brasil!
ASPECTOS
DEMOGRÁFICOS
Daniel Sasson
O primeiro
Recenseamento Geral da população brasileira ocorreu em 1872. A partir de 1890,
os Censos tornaram-se decenais, sendo realizados em anos de final zero. Não
foram realizadas as operações de 1910, 1930 e 1990 (esta última substituída pela
de 1991). Na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, foi realizado
um Censo em 1906, como reposição aos resultados cancelados, para esta cidade, do
Censo de 1900.
A coleta dos dados de religião, entretanto,
não acompanhou a continuidade destas pesquisas desde o início do século. A
regularidade iniciada com o Censo de 1940 foi quebrada com o Censo de 1970,
ocasião em que a investigação sobre o quesito religião foi resumida a quatro
grupos principais.
As primeiras estatísticas oficiais, da
quantidade de judeus residindo no Rio de Janeiro indicam a presença de 202
pessoas na Capital, em 1890, e outras 25 no restante do atual Estado, em 1900. A
tabela abaixo apresenta, com base nestas fontes e de forma resumida, a evolução
do número de judeus recenseados pelo IBGE, a partir de 1940.
População judaica
-
Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio
Grande do Sul - 1940-1991
|
Ano |
Brasil |
Rio de
Janeiro
|
São Paulo |
Rio Grande
do Sul
|
Outros
Estados
|
|
1940 |
55.666 |
21.663 |
20.379 |
6.619 |
7.005 |
|
1950 |
69.957 |
27.431 |
26.443 |
8.048 |
8.035 |
|
1960 |
96.199 |
31.476 |
38.470 |
11.165 |
15.088 |
|
1970 (1) |
93.971 |
30.294 |
41.407 |
9.644 |
12.626 |
|
1980 |
91.795 |
29.157 |
44.569 |
8.330 |
9.739 |
|
1991 |
86.416 |
26.190 |
42.871 |
8.091 |
9.264 |
Fonte: IBGE, Censos Demográficos
(1) Os dados de 1970 foram estimados
como média geométrica entre os dados de 1960 e 1980, apenas para composição da
tabela.
Observamos na figura a seguir, a evolução
do número de judeus residentes desde 1940, no Brasil e no Estado do Rio de
Janeiro:
População judaica residente -
Brasil e Estado do Rio de Janeiro –
1940-1991

Alguns fatores podem explicar a
estabilidade numérica experimentada pela comunidade fluminense desde 1950, um
período em que a população brasileira cresceu 183% e a do Estado do Rio 174%.
Entre eles podemos destacar, como tendo ocorrido isolada ou concomitantemente,
embora sem qualquer comprovação por pesquisa ou levantamento específico, os
seguintes:
Baixas taxas de fecundidade – deduzidas
pela observação da estrutura etária da população e pela análise das taxas
referentes a outros grupos populacionais com características essencialmente
urbanas e com altos níveis de instrução e renda.
Altas taxas de mortalidade – também
deduzidas a partir da observação da estrutura etária, com características
bastante peculiares e indicando um acentuado e acelerado envelhecimento. As
pirâmides etárias apresentadas a seguir ilustram a evolução desse comportamento.
Pirâmides etárias da população judaica
Estado do Rio de Janeiro – 1940-1991
    
Redução drástica da imigração – Dos pouco
mais de 200 judeus contabilizados no início do século, a comunidade se formou
até atingir mais de 20 mil pessoas em 1940. Para este período, Lestchinsky
(1972), utilizando dados do ICA (Jewish Colonization Association), mostra um
crescimento constante da imigração para o Brasil até 1930, quando atingiu seu
ápice, voltando a cair até 1942. Embora os números absolutos (70 mil no período
1900-1942) sejam incompatíveis com os dados oficiais brasileiros, fica claro o
crescimento da importância do ishuv brasileiro. Não existem estimativas para o
período posterior à 2ª Guerra. Mas como ressalta Veltman (1996), “após a
independência de Israel, em 1948, e logo depois da Guerra de Suez, em 1956, São
Paulo recebeu novas levas de imigrantes sefaraditas e orientais, os quais,
fugindo das perseguições anti-sionistas do mundo árabe, vieram aqui se refugiar
(...)”. A mesma corrente foi menos sentida no Rio de Janeiro.
Emigração específica de judeus (aliah)
– Segundo dados oficiais israelenses (Schmeltz & Pérgola, 1986), mais de 68 mil
imigrantes latino-americanos chegaram a Israel entre 1948 e 1983, dentre os
quais 8.400 do Brasil. Segundo os autores, a emigração a Israel tornou-se,
gradualmente, o principal fator das migrações internacionais da população
judaica latino-americana. Chamam a atenção, ainda, que “a partida de um segmento
importante de indivíduos jovens, melhor educados e mais motivados para o
judaísmo, representa uma séria erosão qualitativa no balanço sócio-demográfico e
de identificação das comunidades judaicas latino-americanas”.
Emigração da população fluminense – Após
intensos fluxos migratórios, observados até a década de 80, o Estado do Rio de
Janeiro passou a vivenciar um processo inverso nos últimos 20 anos, perdendo
população. Estima-se que, a partir de 1980, mais de 700 mil pessoas teriam
deixado o Estado, pelos motivos mais diversos: falta de oportunidade de emprego,
transferência de sedes de empresas importantes para outros Estados
(especialmente São Paulo), deterioração da qualidade de vida, violência. Entre
estes emigrantes poderia estar parte da população judaica perdida no período.
Taxa média anual de crescimento da população residente
Estado do Rio de Janeiro - 1940-1991

Assimilação e perda da identidade judaica –
Diversos exemplos de alienação podem ser observados no grupo judeu, sem
conversão para outra religião, como combinação de fortes tendências
assimilatórias e indiferença religiosa. Como ressalta Schmeltz (1972), “há uma
relação direta entre muitos casamentos fora do grupo e: a) a retirada formal ou
informal do cônjuge judeu; b) a educação das crianças como não judias. Todos
esses fenômenos têm implicações no futuro das populações judias. Sob as
condições prevalentes, seu impacto quantitativo é provavelmente significativo,
embora sua atual extensão possa variar consideravelmente entre uma comunidade
judia e outra”.
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